OS PRONOMES E A ARTE DE DESAPARECER
Não é fácil. Aprender a falar e aprender a agir são arte para a vida inteira. Muitas vezes percebo-me tropeçando em palavras e atitudes que há muito deveria ter aprendido. O uso dos pronomes é um constante problema.
Não raras vezes, por exemplo, vejo-me colocando-me em espaços que não me pertencem, como ao dizer “meu país”, para um país que não me pertence mas que, ao contrário, inclui-me no número de seus cidadãos. Ou quando possessivos fazem-me não apenas dizer, mas também crer que possuo coisas que ninguém verdadeiramente possui. Há poucos dias comprei uns peixes de aquário. Por mais que o diga “meus peixes”, a vida na verdade não pertence a nenhum de nós. Não é questão de preço, é questão de princípio.
Outro exemplo freqüente: não é raro ouvir uma lista de pessoas presentes a um evento começar com o pronome na primeira pessoa, o grande “eu”. Essa primeira pessoa ocupa, de fato, um lugar imenso em nossa expressão. Mais ainda, ocupa espaço incrível em nosso imaginário. Curioso eufemismo, descrever esse espaço apenas com duas letras.
Um exercício que constantemente faço, sobretudo agora no aprendizado de línguas estrangeiras, é o de evitar possessivos e tentar sair do centro. Até onde venho percebendo, a vida tem sido melhor assim. Sinto-me mais leve, por exemplo, com menos objetos povoando meu imaginário ou com um senso mais comunitário de posse. O quarto onde moro é mais aberto, por exemplo, e pode acolher outros assim como acolhe a mim. A bicicleta que conduzo é mais acessível a outros. O computador no qual componho essa crônica é menos reservado a um dono. Procurando cultivar mais o cuidado que a posse, sinto-me não necessariamente mais pobre, mas certamente mais leve.
Na enumeração de pessoas, quando lembro de colocar-me no fim da lista igualmente sinto a vida mais simples. É como se participasse de uma competição na qual o objetivo é chegar em último lugar. Posso até esquecer-me no conjunto, pois o ato de enumeração já me inclui como narrador – que pode estar implícito. Estar presente no ato de contar é que conta, discretamente presente no exercício da comunicação.
Afinal de contas, quem ganha em viver sob a luz, o peso e a pressão do centro? Santo Inácio dizia que “tanto mais iremos de bem a melhor, quanto mais sairmos do nosso próprio amor, querer e interesse”. Quanto a mim, quero exercitar essa arte de desaparecer para tentar dar mais espaço e mais tempo para os outros.
Terça-feira, Março 03, 2009
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
Pequenos exercícios para atravessar desertos
Primeiro
Escolha uma cor. Ela lhe ajudará a ver beleza na simplicidade. Afinal, ver o belo é um dos maiores desafios para um coração deserto. A cor será sua lâmpada nessa primeira jornada. Qualquer cor, qualquer tom, qualquer nuance, em qualquer superfície e sob qualquer luz. Apenas lhe peço uma coisa, pequena mas importante: perceba-se escolhendo. Imagine-se escolhendo a cor que você está escolhendo nesse momento.
Talvez você não tenha notado, mas esse processo começou antes que você pensasse nele. Da mesma forma, o deserto em que nos encontramos certas vezes na vida chega a nós sem percebermos. Às vezes colaboramos para a desertificação de nosso quotidiano, às vezes não. O fato é que o tempo segue seu curso, e com ele o convite para atravessar os desertos. Nesse primeiro exercício, eu sugeri escolher uma companheira de jornada. Olhe ao seu redor e busque-a.
E nisso consiste o primeiro passo: como uma criança que abre os olhos em seu primeiro dia sob a luz, você se deixará surpreender por sua companheira, a cor, em suas inumeráveis aparições. Brinque com ela. Vista-a. Admire-a numa obra de arte. Explore sua paleta, seus limites confusos e ricos.
Esse será o primeiro dia do nosso percurso. Antes de dormir, anote em seu caderno de viagem o seu sentimento. Antes de tudo, antes de refletir sobre qualquer outro ponto, escreva o nome do seu sentimento: alegria, serenidade, tristeza... apele para os nomes simples dos sentimentos de criança. Em seguida, anote simplesmente as memórias importantes desse exercício. Se desejar, trace analogias entre as descobertas que sua cor lhe ofereceu, suas analogias com a vida. Somente então adormeça, e não vire a página até que sinta-se satisfeito com esse exercício. Pode repeti-lo tantas vezes quanto deseje, seu coração dita o ritmo.
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
Coluna Peregrina
DONA RUTH E O MISTÉRIO DO TEMPO
Minha avó entra em 2009 com 96 anos. Dona Ruth, como é conhecida, não tem consciência do passar do tempo, porém. Em paralelo minha sobrinha, Bia, acaba de chegar ao mundo e inaugura esse ano com seus quatro meses, criaturinha também inconsciente do dom do tempo que lhe é feito. Duas infâncias, uma pelo direito e outra pelo avesso. E é esse avesso que incomoda, que me leva a refletir sobre o mistério do tempo pairando sobre aqueles que amamos.
Tem sido muito difícil aceitar despedir-se de minha avô na inconsciência, ver o tempo esculpindo marcas em sua carne, seu corpo desvirando gente. Do outro lado, Bia vai ganhando volume sob o calor de seus pais. Muito deveria ser dito nessa hora de adeus, muito tem sido dito àquela que chega. De minha avó se espera o silêncio derradeiro, de minha sobrinha se esperam as palavras. Pergunto-me se é justo traçar esse paralelo entre a alegria da vida nova e a tristeza da despedida, mas é justamente aí que encontro uma resposta.
Creio que estamos acostumados a pensar o tempo de nossas vidas como instantes. Mas tanto na hora do fim quanto na hora do começo, é hora de olhar para o tempo como duração, não como momento. É hora de contar o tempo, de recolher do tempo a identidade que foi construída ou que é prometida. São ocasiões de considerar perspectivas, o que foi e o que será, não exatamente o que é. Tanto para minha avó quanto para minha sobrinha, o centro de sentido do que se vive não está no agora.
Há mais um passo a ser feito para aqueles que crêem no testemunho de Cristo. O tempo que nos é dado só tem sentido cristão se considerado a partir do que está além do tempo. Vida e Eternidade vão de par, sem isso tanto o fim quanto o começo de nossas histórias perdem senso. Sem crermos na vida que jamais termina, sem acreditar na permanência de nossa identidade mesmo o nascimento de um ser humano parece vão. E a despedida da existência no silêncio, como acontece com Dona Ruth, parece ainda mais absurdo se não se crê que sua identidade jamais se perderá e ao contrário será reencontrada no Dia.
Pois o que tanto custa à minha família nesse momento de adeus é justamente não poder falar, não poder contar, dividir o fluxo dos acontecimentos com minha avó. E o tempo parece passar devagar, grávido do sentimento incômodo de tê-la presente ausente. É hora de paciência.
Eu encontro apenas uma forma de encher esse tempo na vida de minha avô de modo alegre. Creio que é um convite a ler a densidade do tempo que foi e que lhe é concedido. Quando ela se cala, cabe a nós falar. E eu uso os verbos no presente, Dona Ruth ainda está.
Minha avó tem uma vida extraordinária, É uma mulher incrível, em muitos aspectos à frente do seu tempo. É portadora de uma das primeiras – senão a primeira – licenças femininas de condutor na Bahia. Teve a coragem de escolher seu parceiro de vida, tendo rompido dois noivados antes de comprometer-se com meu avô Renato, ao lado de quem viveu um testemunho de amor intenso e perene. Ela sabe que o amor se conquista, creio que todos os netos ouviram pelo menos uma vez seus conselhos na matéria.
Minha avó é engraçada. Mesmo agora, quando os momentos de lucidez se fazem cada vez mais raros, volta e meia faz sentir que gosta ou não de certa atitude. Nunca teve medo de dizer o que pensa – atitude que, aliás, causou não raros embaraços. E ria-se...
Rafinée, adora essa palavra e adora francês, matriz cultural da alta sociedade brasileira em seu tempo. Muito ao seu modo, porém, como quando acrescentou açúcar ao seu vinho numa viagem à França, escandalizando assim o garçon que repetia: “Quelle horreur! Quelle horreur!”
E em paralelo Dona Ruth trabalhou mais de trinta anos com as mulheres em situação de prostituição em Salvador, especificamente o baixo meretrício. Um dia contou-me que gostava de ensinar crochê, pois desse modo tinha que estar perto de sua aluna e isso lhe permitia conversar mais facilmente. Sensível.
Artista, poeta esporádica, deixou vestígios de seu dom em tapetes, pratos, lenços, um belo livreto que é verdadeiro tesouro de família e nas estolas que ainda teve tempo de bordar até o fim e me deu de presente, talvez seu último trabalho. E compareceu à celebração de minha ordenação, a última missa pública na qual esteve. E ainda reza, sempre, murmurando Pais-nossos e Ave-Marias sem fim.
Dona Ruth sempre foi uma pessoa complexa, sua despedida não poderia ser simples. Sua presença faz falta. Sinto-me amado por minha avó e sei que não apenas eu. De modos diversos, toda a família e muitos outros podem dizer o mesmo. Talvez seja esse o melhor testemunho que se pode dar de alguém.
Nesse tempo de silêncio e de mistério, minha avó vive o mais longo retiro de sua vida. Ermitãs, ela e Bia. Sozinhas, essas duas mulheres, uma sumindo e outra surgindo, conversam em línguas estranhas com o Espírito, a fonte da existência que carregam. Nesse diálogo segue desenvolvendo-se o maior dom que nos é dado no tempo: nossa a identidade, sermos quem somos relacionados a outras pessoas. Esse dom jamais se perde, mesmo quando as palavras se fazem ausentes.
Minha avó entra em 2009 com 96 anos. Dona Ruth, como é conhecida, não tem consciência do passar do tempo, porém. Em paralelo minha sobrinha, Bia, acaba de chegar ao mundo e inaugura esse ano com seus quatro meses, criaturinha também inconsciente do dom do tempo que lhe é feito. Duas infâncias, uma pelo direito e outra pelo avesso. E é esse avesso que incomoda, que me leva a refletir sobre o mistério do tempo pairando sobre aqueles que amamos.
Tem sido muito difícil aceitar despedir-se de minha avô na inconsciência, ver o tempo esculpindo marcas em sua carne, seu corpo desvirando gente. Do outro lado, Bia vai ganhando volume sob o calor de seus pais. Muito deveria ser dito nessa hora de adeus, muito tem sido dito àquela que chega. De minha avó se espera o silêncio derradeiro, de minha sobrinha se esperam as palavras. Pergunto-me se é justo traçar esse paralelo entre a alegria da vida nova e a tristeza da despedida, mas é justamente aí que encontro uma resposta.
Creio que estamos acostumados a pensar o tempo de nossas vidas como instantes. Mas tanto na hora do fim quanto na hora do começo, é hora de olhar para o tempo como duração, não como momento. É hora de contar o tempo, de recolher do tempo a identidade que foi construída ou que é prometida. São ocasiões de considerar perspectivas, o que foi e o que será, não exatamente o que é. Tanto para minha avó quanto para minha sobrinha, o centro de sentido do que se vive não está no agora.
Há mais um passo a ser feito para aqueles que crêem no testemunho de Cristo. O tempo que nos é dado só tem sentido cristão se considerado a partir do que está além do tempo. Vida e Eternidade vão de par, sem isso tanto o fim quanto o começo de nossas histórias perdem senso. Sem crermos na vida que jamais termina, sem acreditar na permanência de nossa identidade mesmo o nascimento de um ser humano parece vão. E a despedida da existência no silêncio, como acontece com Dona Ruth, parece ainda mais absurdo se não se crê que sua identidade jamais se perderá e ao contrário será reencontrada no Dia.
Pois o que tanto custa à minha família nesse momento de adeus é justamente não poder falar, não poder contar, dividir o fluxo dos acontecimentos com minha avó. E o tempo parece passar devagar, grávido do sentimento incômodo de tê-la presente ausente. É hora de paciência.
Eu encontro apenas uma forma de encher esse tempo na vida de minha avô de modo alegre. Creio que é um convite a ler a densidade do tempo que foi e que lhe é concedido. Quando ela se cala, cabe a nós falar. E eu uso os verbos no presente, Dona Ruth ainda está.
Minha avó tem uma vida extraordinária, É uma mulher incrível, em muitos aspectos à frente do seu tempo. É portadora de uma das primeiras – senão a primeira – licenças femininas de condutor na Bahia. Teve a coragem de escolher seu parceiro de vida, tendo rompido dois noivados antes de comprometer-se com meu avô Renato, ao lado de quem viveu um testemunho de amor intenso e perene. Ela sabe que o amor se conquista, creio que todos os netos ouviram pelo menos uma vez seus conselhos na matéria.
Minha avó é engraçada. Mesmo agora, quando os momentos de lucidez se fazem cada vez mais raros, volta e meia faz sentir que gosta ou não de certa atitude. Nunca teve medo de dizer o que pensa – atitude que, aliás, causou não raros embaraços. E ria-se...
Rafinée, adora essa palavra e adora francês, matriz cultural da alta sociedade brasileira em seu tempo. Muito ao seu modo, porém, como quando acrescentou açúcar ao seu vinho numa viagem à França, escandalizando assim o garçon que repetia: “Quelle horreur! Quelle horreur!”
E em paralelo Dona Ruth trabalhou mais de trinta anos com as mulheres em situação de prostituição em Salvador, especificamente o baixo meretrício. Um dia contou-me que gostava de ensinar crochê, pois desse modo tinha que estar perto de sua aluna e isso lhe permitia conversar mais facilmente. Sensível.
Artista, poeta esporádica, deixou vestígios de seu dom em tapetes, pratos, lenços, um belo livreto que é verdadeiro tesouro de família e nas estolas que ainda teve tempo de bordar até o fim e me deu de presente, talvez seu último trabalho. E compareceu à celebração de minha ordenação, a última missa pública na qual esteve. E ainda reza, sempre, murmurando Pais-nossos e Ave-Marias sem fim.
Dona Ruth sempre foi uma pessoa complexa, sua despedida não poderia ser simples. Sua presença faz falta. Sinto-me amado por minha avó e sei que não apenas eu. De modos diversos, toda a família e muitos outros podem dizer o mesmo. Talvez seja esse o melhor testemunho que se pode dar de alguém.
Nesse tempo de silêncio e de mistério, minha avó vive o mais longo retiro de sua vida. Ermitãs, ela e Bia. Sozinhas, essas duas mulheres, uma sumindo e outra surgindo, conversam em línguas estranhas com o Espírito, a fonte da existência que carregam. Nesse diálogo segue desenvolvendo-se o maior dom que nos é dado no tempo: nossa a identidade, sermos quem somos relacionados a outras pessoas. Esse dom jamais se perde, mesmo quando as palavras se fazem ausentes.
Sexta-feira, Janeiro 09, 2009
Coluna Peregrina - Caminhos
Caminhos
Só existe o meio, caminhos nem começam nem terminam. Insistimos em querer marcar o primeiro quilômetro, o primeiro passo, o ponto de chegada. Mas, na verdade, cada caminho existe apenas no trânsito, no espaço dentro do qual o movimento acontece. Caminho é mudança.
Essas idéias me vêm à cabeça quando o encontro nacional do Grupo OPA – Oração pela Arte está acontecendo em Belo Horizonte. O tema desse ano: “Caminhos”. Mas também reflito num momento de minha vida em que as estradas e as distâncias são importantes, um momento em que não sei bem ao certo onde vou chegar, embora saiba em que direção caminhe. E considerando o que vejo em minha vida e na vida dos outros, noto que o mais interessante, o mais importante está no intermédio, no meado, não nas conclusões. Os contadores de história bem o sabem, e tratam de retardar o final do conto para oferecer ao seu público um pouco mais de história, isto é, de caminho.
Gosto de pensar, ainda, que o primeiro nome usado para designar os cristãos era “aqueles do caminho”. Afinal, ninguém é obra acabada. Habitantes do tempo, somos seres em processo, aos quais é confiado o mistério dos instantes, da seqüência de oportunidades de ir adiante rumo ao mais, mesmo que às vezes tropeçando no menos. Somos fluxo, movimento, passagem, vindo de uma origem difusa e para um destino sempre insuspeitado. Somente o rumo nos pertence.
Aqui somos gente, aqui somos mais humanos e chamados à aliança sempre renovada com o Pai eterno. O rumo. Cabe a cada um de nós a escolha do Norte ou da direção que mais nos aproxima simultaneamente de nós mesmos e dos outros. Todo caminho é metáfora deste outro, o interior, a estrada onde a verdade de cada ser acontece e se revela. Deus é aquele que vem.
Só existe o meio, caminhos nem começam nem terminam. Insistimos em querer marcar o primeiro quilômetro, o primeiro passo, o ponto de chegada. Mas, na verdade, cada caminho existe apenas no trânsito, no espaço dentro do qual o movimento acontece. Caminho é mudança.
Essas idéias me vêm à cabeça quando o encontro nacional do Grupo OPA – Oração pela Arte está acontecendo em Belo Horizonte. O tema desse ano: “Caminhos”. Mas também reflito num momento de minha vida em que as estradas e as distâncias são importantes, um momento em que não sei bem ao certo onde vou chegar, embora saiba em que direção caminhe. E considerando o que vejo em minha vida e na vida dos outros, noto que o mais interessante, o mais importante está no intermédio, no meado, não nas conclusões. Os contadores de história bem o sabem, e tratam de retardar o final do conto para oferecer ao seu público um pouco mais de história, isto é, de caminho.
Gosto de pensar, ainda, que o primeiro nome usado para designar os cristãos era “aqueles do caminho”. Afinal, ninguém é obra acabada. Habitantes do tempo, somos seres em processo, aos quais é confiado o mistério dos instantes, da seqüência de oportunidades de ir adiante rumo ao mais, mesmo que às vezes tropeçando no menos. Somos fluxo, movimento, passagem, vindo de uma origem difusa e para um destino sempre insuspeitado. Somente o rumo nos pertence.
Aqui somos gente, aqui somos mais humanos e chamados à aliança sempre renovada com o Pai eterno. O rumo. Cabe a cada um de nós a escolha do Norte ou da direção que mais nos aproxima simultaneamente de nós mesmos e dos outros. Todo caminho é metáfora deste outro, o interior, a estrada onde a verdade de cada ser acontece e se revela. Deus é aquele que vem.
Quarta-feira, Novembro 05, 2008
Coluna Peregrina
A PERSISTÊNCIA DOS DESEJOS IMPROVÁVEIS
Muita coisa deslocou-se em minha vida nos últimos meses, a começar pelo endereço. No meio do alvoroço de tantas mudanças, algumas coisas foram criando peso, acumulando poeira, até pararem por completo. Deixei de cuidar dessa coluna, negligenciei também as reflexões de Domingo. Peso. Cobrança. Tristeza. Todas as vezes quando quero realizar algo e não me disponho a fazê-lo por um limite interno, sinto-me assim. Mas nessas alturas da vida já aprendi que a persistência é a arte de superar obstáculos, amarrar fios partidos, consertar motores desajustados. Longe de ser a linha reta dos desejos claros, a persistência é o desenho curvilíneo dos desejos improváveis em nossas vidas.
Mas são justamente esses desejos que trazem sabor, temperamento e estilo à nossa história. Meu pai sempre sonhou com uma fazenda e, apesar de jamais ter possuído uma, a permanência desse desejo ofereceu a minha família e a seus amigos uma casa cercada de varandas, bichos e plantas, além de tantas histórias trazidas do ventre da terra. Meu bisavô sonhou com um filho padre e, nas improbabilidades dos fios re-trançados, acabou com um bisneto sacerdote. Eu sempre admirei a magia da escritura. Não acreditava que ousaria. Mas a persistência do desejo traz-me de volta ao forno onde esquento essas palavras todas as semanas, como quem expõe o pão quente nas manhãs das padarias.
Deveria aprender a não temer essa dança com as correntes que ora me movem e ora me param. No final das contas, ninguém comanda a persistência dos desejos verdadeiros. Mas é preciso dar-se conta que a verdade de um desejo tem mais a ver com a sua persistência do que com sua realização. Mais precisamente, a realização dos desejos verdadeiros é mais um fruto espontâneo de sua persistência do que o resultado de uma vontade aguerrida. Olhando bem, a recorrência é um dos instrumentos mais eficazes da verdade e da revelação. Mesmo na ciência, não há conhecimento completo de eventos irrepetíveis. E como os desejos são bichos com vida própria, suas crias tomam formas que quase sempre nos escapam. Prepare-se para viver nas suspresas.
E aproveito a ocasião para transformar minha falta em sugestão. Note e tome nota dos desejos que lhe visitam de modo freqüente. Depois olhe para o horizonte de suas atividades e procure encontrar os vestígios desses desejos em seu dia-a-dia. Não tema as intermitências, os espaços, os suspiros. Antes, procure conciliar as forças e reconciliar-se consigo mesmo. Alimente as ocupações que lhe fazem sonhar, as atividades que lhe fazem perder a noção do tempo. Mesmo que o tempo corra curto um dia e que seja necessário, talvez, olhar para trás e reatar o fio.
Muita coisa deslocou-se em minha vida nos últimos meses, a começar pelo endereço. No meio do alvoroço de tantas mudanças, algumas coisas foram criando peso, acumulando poeira, até pararem por completo. Deixei de cuidar dessa coluna, negligenciei também as reflexões de Domingo. Peso. Cobrança. Tristeza. Todas as vezes quando quero realizar algo e não me disponho a fazê-lo por um limite interno, sinto-me assim. Mas nessas alturas da vida já aprendi que a persistência é a arte de superar obstáculos, amarrar fios partidos, consertar motores desajustados. Longe de ser a linha reta dos desejos claros, a persistência é o desenho curvilíneo dos desejos improváveis em nossas vidas.
Mas são justamente esses desejos que trazem sabor, temperamento e estilo à nossa história. Meu pai sempre sonhou com uma fazenda e, apesar de jamais ter possuído uma, a permanência desse desejo ofereceu a minha família e a seus amigos uma casa cercada de varandas, bichos e plantas, além de tantas histórias trazidas do ventre da terra. Meu bisavô sonhou com um filho padre e, nas improbabilidades dos fios re-trançados, acabou com um bisneto sacerdote. Eu sempre admirei a magia da escritura. Não acreditava que ousaria. Mas a persistência do desejo traz-me de volta ao forno onde esquento essas palavras todas as semanas, como quem expõe o pão quente nas manhãs das padarias.
Deveria aprender a não temer essa dança com as correntes que ora me movem e ora me param. No final das contas, ninguém comanda a persistência dos desejos verdadeiros. Mas é preciso dar-se conta que a verdade de um desejo tem mais a ver com a sua persistência do que com sua realização. Mais precisamente, a realização dos desejos verdadeiros é mais um fruto espontâneo de sua persistência do que o resultado de uma vontade aguerrida. Olhando bem, a recorrência é um dos instrumentos mais eficazes da verdade e da revelação. Mesmo na ciência, não há conhecimento completo de eventos irrepetíveis. E como os desejos são bichos com vida própria, suas crias tomam formas que quase sempre nos escapam. Prepare-se para viver nas suspresas.
E aproveito a ocasião para transformar minha falta em sugestão. Note e tome nota dos desejos que lhe visitam de modo freqüente. Depois olhe para o horizonte de suas atividades e procure encontrar os vestígios desses desejos em seu dia-a-dia. Não tema as intermitências, os espaços, os suspiros. Antes, procure conciliar as forças e reconciliar-se consigo mesmo. Alimente as ocupações que lhe fazem sonhar, as atividades que lhe fazem perder a noção do tempo. Mesmo que o tempo corra curto um dia e que seja necessário, talvez, olhar para trás e reatar o fio.
Sábado, Outubro 11, 2008
Coluna Peregrina
SHAOLIN

Pórtico no templo de Shaolin, Luoyang, China (Foto: Li Beda/Tale Image)
A vida espiritual é um combate. Ainda mais quando se visita o tempo de Shaolin – que significa pequena floresta – nos arredores de Luoyang. O lugar é grandioso. Acolhidos no abraço das montanhas que cercam o templo, começamos uma longa caminhada até o coração desse mosteiro. Como sempre, porém, a beleza está nos detalhes.
Eis o primeiro: as portas brilhantes. Posto que sempre abertas, quase ninguém repara nelas. São impressionantes, porém, essas portas sólidas, como os portais das catedrais mais antigas. O vermelho brilhante que pousa nelas é como carne e sangue, essas portas são seres vivos movimentando-se no constante exercício de dar lugar, de indicar a entrada e desaparecer para dar passagem. Lição de vida.
Outro detalhe: os troncos dos ciprestes antigos repletos de furos. São marcas de dedos. Vestígios ancestrais de exercícios desses monges guerreiros, praticando como atingir o máximo de impacto com a mínima superfície de uma falangeta. Aprendo dos monges e das árvores: a persistência de um e a paciência da outra repetem-me como é vital a constância na vida espiritual. A reiteração dos desejos cria a marca das grandes realizações em nossa vida.
Mais um sinal: os imensos caldeirões de bronze nos quais se cozinhava arroz. Os caldeirões em si não são o mais importante, porém. Os monges que os utilizavam tinham os pés atados no teto e preparavam o arroz de ponta a cabeça. Isso faz-me perceber como todos os eventos de nossa vida são ocasião de aprendizado, de prática, mesmo os atos mais corriqueiros. Como beber água, por exemplo, percebendo a simplicidade dessa matéria da qual nos vem a vida. Tudo é ocasião de graça.
Em Shaolin todos os detalhes falam. E o verdadeiro combate acontece dentro. A grande diferença que eu percebo entre essa tradição e a minha, porém, é que eu percebo uma força muito maior que eu mesmo lutando ao meu lado. E a vitória já foi conquistada na árvore da vida, na árvore da Cruz plantada por nosso Irmão. A única luta que travo, o grande combate de minha existência, é chegar a ser o que eu devo ser, ouvindo a voz que, desde o céu, guia-me para fora de mim mesmo

Pórtico no templo de Shaolin, Luoyang, China (Foto: Li Beda/Tale Image)
A vida espiritual é um combate. Ainda mais quando se visita o tempo de Shaolin – que significa pequena floresta – nos arredores de Luoyang. O lugar é grandioso. Acolhidos no abraço das montanhas que cercam o templo, começamos uma longa caminhada até o coração desse mosteiro. Como sempre, porém, a beleza está nos detalhes.
Eis o primeiro: as portas brilhantes. Posto que sempre abertas, quase ninguém repara nelas. São impressionantes, porém, essas portas sólidas, como os portais das catedrais mais antigas. O vermelho brilhante que pousa nelas é como carne e sangue, essas portas são seres vivos movimentando-se no constante exercício de dar lugar, de indicar a entrada e desaparecer para dar passagem. Lição de vida.
Outro detalhe: os troncos dos ciprestes antigos repletos de furos. São marcas de dedos. Vestígios ancestrais de exercícios desses monges guerreiros, praticando como atingir o máximo de impacto com a mínima superfície de uma falangeta. Aprendo dos monges e das árvores: a persistência de um e a paciência da outra repetem-me como é vital a constância na vida espiritual. A reiteração dos desejos cria a marca das grandes realizações em nossa vida.
Mais um sinal: os imensos caldeirões de bronze nos quais se cozinhava arroz. Os caldeirões em si não são o mais importante, porém. Os monges que os utilizavam tinham os pés atados no teto e preparavam o arroz de ponta a cabeça. Isso faz-me perceber como todos os eventos de nossa vida são ocasião de aprendizado, de prática, mesmo os atos mais corriqueiros. Como beber água, por exemplo, percebendo a simplicidade dessa matéria da qual nos vem a vida. Tudo é ocasião de graça.
Em Shaolin todos os detalhes falam. E o verdadeiro combate acontece dentro. A grande diferença que eu percebo entre essa tradição e a minha, porém, é que eu percebo uma força muito maior que eu mesmo lutando ao meu lado. E a vitória já foi conquistada na árvore da vida, na árvore da Cruz plantada por nosso Irmão. A única luta que travo, o grande combate de minha existência, é chegar a ser o que eu devo ser, ouvindo a voz que, desde o céu, guia-me para fora de mim mesmo
Sexta-feira, Setembro 26, 2008
Coluna Peregrina
OS POVOS DA TERRA

A terra é redonda. Não resistimos a deslizar sobre sua superfície, sobretudo quando as costas de um cavalo se oferecem a nós, seres sedentos de desafios. Velocidade, precisão, equilíbrio, leveza... tudo se concentra na cena de um campeão em exercício nas estepes da Mongólia. Sou transportado aos pampas, ao nordeste, ao Arizona, às llanuras aos campos do mundo inteiro.
Tudo não passa de um jogo. A única regra é não cair, ou cair na hora e do jeito certo. Cada músculo é solicitado, cada segundo calculado, todos os instintos à flor da pele. Primeiro o silêncio. O objetivo agora é capturar a mínima recompensa (apenas alguns yuans recolhidos da platéia), sem parar o animal. O cavalo avança. Rápido, cada vez mais rápido. Os corações suspensos, um susto quando o peão se inclina e... Vapt! Ei-lo consagrado pela admiração de quem vê e sonha. Retorna ao ponto e, junto com os companheiros, parte para a corrida, cada um disputando as milhas, as migalhas de espaço para chegar primeiro. Corrida, rodeio, vaquejada, o mundo inteiro corre nas patas de um cavalo.
Algo que não me deixa a mente é a pequenez da terra. Das primeiras esculturas às extravagâncias de Dali, cavalos. Na corte do imperador Qing, foram os cavalos pintados por Castiglione, irmão jesuíta e exímio artista, que ajudaram a manter abertas as portas da Igreja em momentos decisivos. É que esse animal mora dentro de nós, em sua beleza, sinceridade e estranha combinação de docilidade e selvageria. Somos centauros, em sua duplicidade humano-equestre.
O problema é que vivemos nesse tempo, quando a velocidade dos carros expulsaram os animais das ruas. Perdemos os instintos, sentimo-nos estranhos quando pisamos a terra de pés nus. Pois a terra foi moldada pelo concreto, ficou quadrada e jamais voltará a ser como era – apesar do gênio de Gaudí. Mas ao sentir o coração bater como no primeiro dia diante da visão desse arquétipo ágil, tenho esperança. Assim como o cavalo, a primavera da humanidade reside dentro da alma. E a redondeza do mundo não se mede pelas coisas, e sim pela caridade.

A terra é redonda. Não resistimos a deslizar sobre sua superfície, sobretudo quando as costas de um cavalo se oferecem a nós, seres sedentos de desafios. Velocidade, precisão, equilíbrio, leveza... tudo se concentra na cena de um campeão em exercício nas estepes da Mongólia. Sou transportado aos pampas, ao nordeste, ao Arizona, às llanuras aos campos do mundo inteiro.
Tudo não passa de um jogo. A única regra é não cair, ou cair na hora e do jeito certo. Cada músculo é solicitado, cada segundo calculado, todos os instintos à flor da pele. Primeiro o silêncio. O objetivo agora é capturar a mínima recompensa (apenas alguns yuans recolhidos da platéia), sem parar o animal. O cavalo avança. Rápido, cada vez mais rápido. Os corações suspensos, um susto quando o peão se inclina e... Vapt! Ei-lo consagrado pela admiração de quem vê e sonha. Retorna ao ponto e, junto com os companheiros, parte para a corrida, cada um disputando as milhas, as migalhas de espaço para chegar primeiro. Corrida, rodeio, vaquejada, o mundo inteiro corre nas patas de um cavalo.
Algo que não me deixa a mente é a pequenez da terra. Das primeiras esculturas às extravagâncias de Dali, cavalos. Na corte do imperador Qing, foram os cavalos pintados por Castiglione, irmão jesuíta e exímio artista, que ajudaram a manter abertas as portas da Igreja em momentos decisivos. É que esse animal mora dentro de nós, em sua beleza, sinceridade e estranha combinação de docilidade e selvageria. Somos centauros, em sua duplicidade humano-equestre.
O problema é que vivemos nesse tempo, quando a velocidade dos carros expulsaram os animais das ruas. Perdemos os instintos, sentimo-nos estranhos quando pisamos a terra de pés nus. Pois a terra foi moldada pelo concreto, ficou quadrada e jamais voltará a ser como era – apesar do gênio de Gaudí. Mas ao sentir o coração bater como no primeiro dia diante da visão desse arquétipo ágil, tenho esperança. Assim como o cavalo, a primavera da humanidade reside dentro da alma. E a redondeza do mundo não se mede pelas coisas, e sim pela caridade.
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